Vida longa aos reis
Depois de muitas décadas, as Drag Queens estão começando a ganhar prestígio e reconhecimento. Mas enquanto as performances Queen esgotam ingressos de festas, os Drag Kings ainda lutam por seu espaço sob os holofotes

Reportagem Selecionada — Projeto Tirando da Gaveta da Anú
León Rojas começou a ser esboçado no banheiro da casa onde Julia Franz (22) morou por um ano em Buenos Aires. Até então, aquilo não tinha um nome. Quando desenhava o primeiro bigode, a esnttudae de jornalismo só queria brincar com sua noção de gênero e explorar sua própria masculinidade. Mas, ao conhecer a expressão Drag King, tudo fez mais sentido.

Julia e León
Aos poucos, surgia León e, com ele, um novo olhar de mundo para Julia. “O León transformou minha vida completamente! Me deu condições de entender coisas que eu não entendia. Questões de gênero, minha própria feminilidade, como eu lido com minhas barreiras com isso, outras formas de me relacionar comigo mesma. Coisas que eu não ia aprender lendo um livro”, ela conta.
Julia faz Drag King há menos de um ano, mas foi tempo suficiente para que León ganhasse um grande significado em sua vida. Ela fala do argentino em terceira pessoa e se emociona ao descrevê-lo. Admira a confiança, o alto astral e o “portunhol” dele.
Para ela, seu Drag King não tem um único significado. É uma forma de arte, de expressão. É também um ato político, pois questiona a efemeridade e a fragilidade das concepções de gênero. Para Julia, “O León é leve, mas muito resistente. Eu me sinto confortável quando eu tô nele”. Mas se alguém pergunta a León quem é Julia Franz, a resposta é diferente: “Não conheço muito bem, porque sempre que eu chego ela sai!”, devolve com humor.
Mesmo dividindo um só corpo, são duas personalidades contrastantes. Julia é eclética, extrovertida e comunicativa. Já ele admite ser mais retraído: “no me gusta mucho hablar com as pessoas”. Diz que prefere a interação online. Em meio a divergências de gosto musical e temperamento, os dois têm uma grande semelhança: o engajamento na luta pela igualdade de direitos entre gêneros e sexos.
“Quando o León nasceu, ficou muito claro que eu não queria reproduzir um estereótipo que eu não concordo, daqueles homens ‘machões’. Eu busquei desconstruir a masculinidade”, comenta.
Ela é uma mulher feminina e lésbica. Ele, um homem gay. Mas Julia faz questão de afirmar impetuosamente que o fato de León ser homossexual não o deslegitima enquanto homem. “Ele é marica, mas, ao mesmo tempo, ele é homem!”, explica. E León concorda: “Ser macho é muito relativo! Eu tô com uma barba de flor, mas eu sou muito macho, porra!”.
Tanto as características de León quanto as de Julia podem gerar confusão. Mas é este mesmo o objetivo: “Essa confusão gera curiosidade, e faz a pessoa se questionar. Pra mim, é fazer as pessoas refletirem sobre suas ideias de gênero”, conta Julia. Logo em sua primeira apresentação, León soube que sofreria certa resistência e estranhamento. O público da festa Xtravaganza encarava León com olhos de confusão durante sua performance sobre o palco do bar Opinião. Homem? Mulher? Transexual? A dificuldade de classificar alguém faz muitas pessoas se sentirem incomodadas. Mas para Julia, incômodo é o caminho para que a sociedade repense alguns valores. E, mesmo sem palestrar sobre o assunto, ela acredita que o movimento Drag King tem bastante eficácia enquanto uma forma de “micropolítica”.
Curiosamente, este estranhamento também parte do público LGBT friendly, isto é, que respeita pessoas Lésbicas, Gays, Bissexuais, e Transgênero (travestis, transexuais, transformistas e outras classificações). Tempos depois da estreia de León, em outra edição da festa Xtravaganza, Julia foi abordada por um desconhecido que confessou seu preconceito com performances Drag King. Ele disse a ela que achava aquilo “ridículo” e que não entendia o que ela queria se vestindo como homem. “Aí ele disse que viu minha última performance e achou muito foda. Me deu parabéns e falou que consegui quebrar o preconceito que ele tinha”, conta emocionada.
São estes resultados que motivam Julia a seguir dando vida a León: “É justamente por isso que eu tô lutando! Pra que isso seja reconhecido de alguma forma. Pra que as pessoas se questionem, pra que vá além do preconceito. Ele nem tinha visto e achava ridículo!”. Para vencer esse preconceito, Julia acredita que o movimento Drag King precisa crescer. “Uma Drag Queen, por mais que a pessoa não goste, é algo que ela já viu antes, e é mais fácil de assimilar. Então, quanto mais a gente fizer King, mais as pessoas vão entender”, explica.
O maior sonho de León é também um grande desejo de Julia: se dedicar exclusivamente ao seu trabalho como Drag King. Mesmo sabendo que viver como artista – ainda mais em Porto Alegre, onde mora – é bastante desafiador, ela acredita que se sustentar apenas com performances em festas, palestras, colégios e eventos particulares é um sonho possível. “Tem que trabalhar muito, mas dá sim! Conheço várias Drag Queens que vivem disso. Então eu acho que existe muita resistência dentro e fora do meio LGBT, mas as coisas já tão mudando. Tem mais gente conhecendo, mas a gente precisa de mais, de referências, pra ver que dá sim. É difícil, mas é possível”.
Como a grande maioria dos gaúchos que escolheram a arte como profissão, uma artista Drag dificilmente terá uma vida de luxo e mordomias. Mas quando há amor e propósito no que se faz, o destino será sempre a próxima performance.

Veronica queria saber se era convincente como homem
Thiago Bragança de Castro é um virginiano sarcástico de 26 anos, nascido na Ilha de Açores, em Portugal, e herdeiro da família Orleans e Bragança. Ele é fruto de um jogo de dorminhoco entre a advogada Veronica Silva e seu namorado, Giovani Zeferino. Com a rolha queimada, Giovani desenhou um bigode abaixo do nariz da namorada. “Eu achei que ia ficar uma palhaçada, mas, quando me olhei no espelho, pensei ‘meu Deus, eu fico gatíssimo’, e terminei de desenhar a barba”, conta Veronica. Foi então que decidiu colocar as roupas do namorado e ir a uma festa. Ela queria saber se seria convincente como homem, e foi. Durante toda a noite, ninguém desconfiou de nada.
Naquele momento, ela ainda não sabia da importância que seu Drag King teria em sua vida. Mas a curiosidade de Veronica em descobrir o que aconteceria ao tentar se passar pelo outro gênero foi o começo de uma transformação pessoal.
A maior mudança foi em sua percepção sobre as diferenças no modo como homens e mulheres são tratados socialmente. “Sabe quando tu tá jogando vídeo game e dá o controle desligado pro teu irmão mais novo? A mulher é o eterno ‘café-com-leite’ das discussões. Tua opinião só tem validade se tem um homem do teu lado. A gente se sente cidadão de segunda classe. E nem sempre é algo escancarado, as pessoas não me tratam mal. Mas não me levam a sério como mulher”, desabafa.
Por outro lado, ser homem é viver em um “estado neutro”, pois “quando tu é homem, tu é realmente o que tu é. Tu sente que as pessoas escutam o que tu fala, e não te definem logo no começo da conversa”, Veronica afirma. Este comparativo é a principal razão pela qual gostaria que mais mulheres fizessem King. “Queria que elas vissem como os homens pensam, pra não darem tanta bola pra o que eles falam. Eu sei como uma influência masculina pode ser destruidora na vida de uma mulher. E entender essas coisas ajuda a não dar tanto peso”, conta. Thiago também gostaria de ver mais Drag Kings em Porto Alegre, mas por outro motivo: “Eu quero fazer uma apresentação do N’Sync, preciso de gente. Ah, e também pra ter mais shows, mais referências, mais arte!”.
Outra grande mudança para Veronica foi em relação a seu entendimento sobre questões de gênero. Contestar os “dogmas” que cercam a masculinidade e a feminilidade a fez conhecer melhor a si mesma. “Descobrir como é ser homem, ver o feminino que é teu e o que te é imposto, é um autoconhecimento. Eu me conheço muito melhor! Sei separar o que é natural e o que foi aprendido, o que é social e o que é meu”. E esta perspectiva fez Veronica compreender ainda mais a importância de respeitar a liberdade de gênero.
“Se me chamar de Veronica ou de Thiago eu vou atender porque isso não muda quem eu sou! Não faz diferença pra mim, mas se pra alguém faz, por que tu não vai chamar a pessoa como ela quer? Por que é tão importante pras pessoas terem bem definido o que é masculino e feminino a ponto de não respeitar a escolha do outro?”, completa.
Thiago explica que nossa sociedade é extremamente binária quanto a gêneros. Isto é, para ser aceita como “normal”, uma pessoa deve ser classificada como homem ou como mulher. Porém, os critérios desta classificação muitas vezes são abstratos e subjetivos. “Posso pegar meia dúzia de roupa e deu, viro homem ou mulher. O quão absurdo é isso? As pessoas vivem limitadas por conceitos tão absurdos, que se a gente trocar de roupa assume o outro gênero. São coisas tão ridículas e abstratas! Tipo, ‘ah, só homem pode? … me dá uns minutinhos que eu já volto’. E aí tu percebe que isso tudo não faz diferença!”, explica Thiago.
Há três anos Thiago vem transformando a vida de Veronica. Sem grandes pretensões financeiras ou profissionais, ela faz Drag King porque acredita ser uma potente ferramenta de mudança positiva no mundo. E junto à causa política está a motivação pessoal. “É um bom jeito de me expressar e sair da zona de conforto. Eu tenho medo de palco, ansiedade, e fazer King me ajuda muito com isso”, revela.

Os Drag Kings ainda lutam pelo mesmo reconhecimento das Queens
Veronica explica que nunca gostou muito de usar maquiagem ou outros elementos estéticos relacionados à feminilidade. “Eu nunca fui muito feminina, e minha mãe queria que eu fosse mais. No começo ela me perguntava o que eu queria da minha vida, e dizia pra eu decidir. Se queria ser homem, ok. Mas eu tinha que me decidir”, ela conta rindo. A mãe dela, Gladis Rocha, confessa que às vezes é difícil entender os motivos da filha. “Quando ela começa a se arrumar em casa eu fico meio apavorada com esse troço. Mas eu acho que eu criei meus filhos pra serem felizes. Então a escolha é dela. Eu não gosto muito, acho que podia ter escolhido algo mais legal pra fazer. Mas a escolha é dela e ela faz pra se divertir! Eu só queria que o Thiago pudesse usar batom!”, a mãe conta com bom humor.
Reportagem e fotos: Luiza Ortigara