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O carnaval que Porto Alegre não vê

Expressão máxima do carnaval brasileiro, em Porto Alegre, os desfiles acontecem do povo carnavalesco para o povo carnavalesco. Em 2017, em meio à inúmeras dificuldades, teve desfile que não aconteceu. Quanto ao planejamento para 2018, a Secretaria de Cultura preferiu não se manifestar

Novecentas fantasias confeccionadas graças à mobilização dos moradores da Vila Maria da Conceição. Duzentos integrantes na bateria que leva a cadência da batida de favela ao sambódromo. E uma homenagem à instituição que presta serviço aos jovens da comunidade. Esse era o carnaval que a Academia de Samba Puro iria levar para a avenida.

 

Novecentas fantasias foram produzidas em um atelier comunitário na Maria da Conceição.

No entanto, no dia 24 de março, data prevista para o desfile das escolas da Série Prata, o Complexo Cultural do Porto Seco foi interditado pela Justiça e Corpo de Bombeiros por descumprimento do PPCI (Plano de Prevenção Contra Incêndio). Assim, Samba Puro, Copacabana, Unidos do Capão, Vila Isabel, Império do Sol, Praiana, Realeza e Unidos de Vila Mapa não desfilaram e o público teve de voltar para casa.

 

“Eu fui até destratado pela Brigada Militar. Nós fomos, literalmente, barrados no baile. Só em ver as pessoas da comunidade já prontas, já fantasiadas, foi muito doloroso”, conta o Diretor de Carnaval da Samba Puro, Dilmair Monte.

 

O CORAÇÃO DO CARNAVAL A DURAS PENAS

 

Desde que a nova administração da Prefeitura de Porto Alegre anunciou o corte de verbas para o desfile das escolas de samba da capital, as agremiações já previam a grande dificuldade que seria realizar o carnaval neste ano. Segundo a Liga Independente das Escolas de Samba (Liespa), seriam necessários pelo menos R$ 3 milhões para a realização do evento.

 

Embora o Termo de Ajuste de Conduta (TAC) do Ministério Público assinado pela Prefeitura e pelas entidades carnavalescas não obrigasse o repasse, o presidente da escola Império do Sol, Alzemiro Jacintho da Silva, lembra que havia previsão de verba: “O carnaval é uma festa oficial da cidade, estava previsto R$ 7 milhões”.

 

Em janeiro, após comunicar que não iria financiar o desfile, o prefe o prefeito Nelson Marchezan Jr. (PSDB) garantiu que sua equipe trabalharia na captação de recursos da iniciativa privada. Mas, de acordo com Marco Aurélio Rosa [Marquinhos], vice-presidente da Unidos de Vila Mapa, ficou só na promessa.

 

Dilmair conta que a escola iria homenagear a Pequena Casa da Criança, instituição que atende jovens da comunidade.

 

Dessa forma, algumas medidas foram anunciadas pela Liespa para economizar verbas: o cancelamento do desfile das escolas campeãs e a redução de mais de 2,3 mil lugares nas arquibancadas. Além da desistência de oito escolas do grupo Bronze passar pelo Complexo.

Ainda assim, os grupos Ouro e Prata seguiram na missão de não enrolar o pavilhão. As comunidades dedicaram-se à buscar financiamentos e muitas vezes tiraram dinheiro do próprio bolso. “Realizamos diversas oficinas e reciclamos materiais. E a comunidade vendo que a gente estava com essa disposição, começou a doar fantasias, costeiros… a partir daí começou a crescer. As novecentas fantasias produzidas no atelier comunitário seriam entregues de forma gratuita”, relata Dilmair.

 

Assim como a Samba Puro, a Unidos de Vila Mapa também não mediu esforços para a confecção de fantasias e carros alegóricos, mesmo sem dinheiro público. Mas, o enredo sobre o champagne e o colorido da França acabou ficando guardado no barracão. Da mesma maneira que os enredos que traziam as comidas nagô, da Copacabana, e o mundo dos jogos, da Império do Sol, ficaram escondidos.

 

“Foi uma desilusão total, as escolas com menor poder aquisitivo, foram as mais penalizadas”, conta a presidente da Copacabana, Dalvenice de Freitas. Alzemiro também lembra dos momentos de angústia dos integrantes que vinham de São Leopoldo para desfilar: “Os mais velhos chegaram a passar mal. Ainda que tivéssemos dificuldades, tínhamos conseguido o engajamento da escola e aí não desfilamos”.

 

O público não viu a Dandara, da escola Realeza.

 

“Como foi divulgado amplamente, neste novo governo municipal, devido à questão econômica, não houve aporte financeiro para infraestrutura, serviços e cachê das escolas. Com isso, toda a responsabilidade pela organização do carnaval deste ano é das entidades que representam as escolas”, disse o coordenador de manifestações populares da Secretaria Municipal de Cultura, Érico Leoti.

 

“Acho que a gente também precisa cobrar da Liespa para que o PPCI seja visto com antecedência. Não pode o povo estar chegando e acontecer todo esse transtorno”, afirma Marquinhos.

 

Na ocasião, o presidente da Liespa, Juarez Gutierres, alegou que a demora na instalação dos equipamentos foi devido às diversas solicitações feitas pelos bombeiros e “à demanda de tempo curtíssimo”.

 

Para mestre Maurício, Diretor de Bateria da Samba Puro, a gestão do carnaval precisa de mudanças urgentes. “O PPCI dos Bombeiros não é só da pista. É dos barracões, é de todo o Complexo. Somos 26 escolas e 14 barracões. Como eu vou qualificar os meus profissionais, se não tenho espaço pra isso?”, questiona.

 

De acordo com os carnavalescos, tornar o carnaval mais atrativo, além do incentivo financeiro, passa pela formação dos profissionais, com oficinas de aramismo e reciclagem, por exemplo. Algo que daria ao Porto Seco função social o ano inteiro. “Estamos aqui há 13 carnavais e nada de definitivo foi feito, além dos barracões”, diz Dalvenice.

 

Desde 2004, com a polêmica inauguração do Porto Seco, a demanda das arquibancadas é uma constante. Todo o ano é necessário a instalação da estrutura e, consequentemente, o gasto com ela. Segundo o Portal da Transparência, o custo com a estrutura temporária é em torno dos R$ 3 milhões por ano.

 

Maurício era conselheiro da Cultura na época da transferência do carnaval para a zona norte. “Eles quiseram afastar o Complexo, tiraram da Augusto de Carvalho porque diziam que a gente trazia problemas como sujeira e insegurança pros moradores do centro. Só que agora os blocos desfilam lá”, afirma.

 

Marquinhos e Maurício lamentam o mau aproveitamento do Complexo durante o ano.

DO POVO DO CARNAVAL, PARA O POVO DO CARNAVAL

 

Há muito tempo se percebe que em Porto Alegre as mesmas pessoas que desfilam nas escolas são as mesmas que assistem aos desfiles. É o tempo de atravessar a avenida e voltar para a arquibancada para ver os amigos e familiares desfilarem. “No geral, o portoalegrense não é carnavalesco. O povo do carnaval é o povo negro, de periferia”, afirma Dilmair.

 

Além do preconceito, eles acreditam que a distância do centro contribuiu para a desvalorização da cultura popular. “Se tivéssemos no centro, poderíamos revitalizar a nossa orla e ter mais interesse dos turistas”, diz Maurício.

 

Dilmair ainda lembra que a festa gera em torno de 2.500 empregos de forma direta e indireta, para costureiras, serralheiros, pintores: “O carnaval gera renda, mas o poder público não tá nem aí”. Com o corte de verbas para o carnaval, a Império do Sol deixou de contratar serralheiros e costureiras que trabalhavam para a escola há mais de vinte anos.

 

A Imperio do Sol, de São Leopoldo, traria tema idealizado por Sérgio Peixoto, carnavalesco premiado que faleceu em dezembro. Foto: Reprodução:Facebook | Durante o ano, os integrantes da Copacabana marcaram presença nos ensaios. Foto: Setor1

Com participação em diversas escolas como Império da Zona Norte, Bambas da Orgia, Vila Isabel e Unidos de Vila Mapa, a aderecista Luma Oliveira não conseguia disfarçar a frustração: “É o trabalho de um ano inteiro que não foi respeitado”. Para Luma, o momento do desfile é o ápice na vida de quem ama o carnaval. “É uma adrenalina que só quem participa, sabe”, completa Dalvenice.

Mesmo com a tristeza de não realizar o desfile, o empenho das entidades pelo carnaval é evidente. Segundo Marquinhos, da Vila Mapa, o grupo Prata ajudou para que o Ouro pudesse se apresentar, emprestando integrantes de alas e materiais para a prevenção de incêndio.

 

Em 2017, a Imperadores do Samba sagrou-se como a grande campeã do Carnaval. No entanto, no quesito resistência, todas foram nota dez. A Samba Puro, por exemplo, decidiu desfilar para a sua própria comunidade no domingo (2/04): “A gente não passou, a comunidade tá ferida, mas vitoriosa”, afirma Maurício. Mais do que nunca, o carnaval em Porto Alegre foi do povo do carnaval, para o povo do carnaval.

 

Questionada sobre o planejamento do carnaval de 2018, a Secretaria da Cultura preferiu não se manifestar. Já a Liespa afirmou que fará alguns anúncios em maio, quando ocorrerá o Estandarte de Ouro, evento que premia os destaques do carnaval. Diante de muitas incertezas, os carnavalescos esperam um novo olhar e novos investimentos para a cultura popular: “A cultura também traz saúde, segurança, educação. Porque ela trabalha a juventude”, reflete Alzemiro.

 

“Eu nasci dentro de uma escola de samba. O dia que não tiver mais carnaval em Porto Alegre, eu me mudo”, diz Marquinhos.

 

Desfile da Samba Puro para sua comunidade no dia 2 de abril. Foto: Reprodução:Facebook

Confira também: O desfile que o Porto Seco não viu

O desfile que o Porto Seco não viu

O desfile que o Porto Seco não viuEm Porto Alegre, o coração do carnaval vive a duras penas. E em 2017, em meio a inúmeras dificuldades, teve samba que o público não ouviu, teve desfile que o Porto Seco não assistiu. A Anú foi conhecer um pouco do que as escolas do grupo Prata iriam apresentar na avenida no dia 24/3. Confira na reportagem o trabalho de um ano inteiro que ficou guardado no barracão. Reportagem: Gabrielle de Paula e Yamini Benites | Vídeo: Alice Soares

Posted by Anú – Laboratório de Jornalismo Social on Wednesday, April 5, 2017

Reportagem: Gabrielle de Paula Fotos: Yamini Benites Edição Vídeo: Alice Soares
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